domingo, 23 de fevereiro de 2014

Dos autoclismos aos candeeiros, a crise ucraniana ainda não chegou aos negócios portugueses



As encomendas prosseguem ao ritmo normal e os distribuidores locais estão a transmitir mensagens de tranquilidade às empresas exportadoras, que mantém os planos de vendas e investimentos na Ucrânia.
“Business as usual”. Pelo menos por enquanto, nem há redução de encomendas nem do outro lado do telefone chegam sinais de alarme. Foi este o cenário descrito ao Negócios por várias empresas portuguesas, de diversos sectores, que exportam para o mercado ucraniano. E que acreditam que os conflitos sangrentos dos últimos dias vão acabar por ser definitivamente sanados pela via pacífica.

“Temos crescido na Ucrânia e continuamos com a expectativa de continuar a crescer. Até porque acreditamos que tudo se resolverá a breve trecho. Os problemas estão muito concentrados na capital Kiev, sendo que no resto do país continua-se a trabalhar dentro de alguma normalidade, pelo que até agora não temos sentido o impacto desta situação de forma significativa”, resumiu António Oliveira, presidente da aveirense OLI, que é a maior produtora de autoclismos da Europa.

Em Vagos, a mensagem não é muito diferente, embora a Grestel esteja menos exposta ao mercado ucraniano e as suas loiças de forno, mesa e cozinha sejam mais procuradas por um “segmento alto, que parece passar ao lado das crises social e política”. “Pelas informações que nos chegam dos nossos contactos locais, é um problema muito localizado e que, pensam, será superado em poucas semanas. A actividade comercial decorre com normalidade”, acrescentou o director comercial, Carlos Ruão.

Da mesa para o tecto, sobe também a importância do mercado ucraniano, “um dos principais” para a Castro Lighting, de Gondomar, que tem lá “bons clientes”, sobretudo na zona da capital. A directora de marketing, Joana Gonçalves, assegurou que “a nível de encomendas ainda não se notaram alterações”, embora tenha mostrado apreensão com o impacto no futuro. “É claro que nos preocupa o que está a passar-se lá. Isso terá reflexos na economia local”, completou.

“Conscientes dos riscos políticos”

Na Ucrânia, onde factura perto de 80 mil euros por ano, a Aldeco Interiors trabalha com um distribuidor, que “permanece também na expectativa do que poderá acontecer nos próximos tempos”, referiu o CEO, Alberto Dias, que “no imediato” ainda não sentiu quebra nas encomendas.

E daqui para a frente? “É natural que o mercado se retraia nos próximos tempos. Veremos com que intensidade. Para além de Kiev, temos os nossos produtos expostos em Odessa, Donetsk, Kharkiv, Dnipropetrovsk, Lviv e Simferopol. Como sabemos, a revolta tem vindo a alastrar-se para outras regiões, embora Kiev ainda continue a ser o principal foco das atenções”, resumiu o empresário de Vila Nova de Gaia.

No segmento em que a Aldeco actua – o da decoração (tecidos) – a Ucrânia representa “um mercado novo, no sentido em que socialmente o país ainda se “liberta” dos costumes sociais da ex-União Soviética e se interessa e adopta comportamentos e estilos ocidentais, investindo bastante na moda e em produtos de decoração”. Ou seja, o público-alvo detém um “elevado poder de compra”.

“Enquanto empresa exportadora, estamos conscientes de que o factor risco político – inerente a qualquer mercado com o qual estabelecemos relações comerciais – existe, com maior ou menor grau de gravidade. Neste caso, estamos atentos ao desenrolar da situação, nomeadamente para ver o papel que a União Europeia irá desempenhar em conjunto com os restantes intervenientes: o próprio poder local e a Rússia”, perspectivou Alberto Dias.

Já aos escritórios da Efapel, no concelho da Lousã, o distribuidor ucraniano do maior fabricante português de aparelhagem eléctrica de baixa tensão ainda não fez chegar qualquer alteração ao volume de encomendas, que se tem mantido. “Não corremos risco nenhum porque ele paga antecipado. Eles sentirão [os efeitos dos conflitos], mas em termos de negócios ainda não afectou nada”, sustentou o presidente, Américo Duarte.

Contratar um ucraniano, de olho no exemplo egípcio

A instabilidade política e social na Ucrânia não irá travar os planos de investimento da Q-Better, uma jovem empresa de Braga com vários projectos naquele mercado, sobretudo na área do software de gestão de filas. Aliás, tem inclusive a decorrer o processo de recrutamento de um trabalhador ucraniano para “impulsionar os negócios” no país de Leste, que tal como a Polónia ou a Rússia, são “bons mercados para investir” devido à sua dimensão e ao facto de terem uma “taxa de penetração tecnológica bastante elevada”.

Daniel Sousa, o responsável pela área tecnológica (CTO), crê que os conflitos serão “uma situação temporária”, que “não preocupa muito”. “Mesmo nos e-mails que trocámos com os clientes não notamos uma grande diferença. Acredito que se possa resolver pela via pacifica. Ainda é um fenómeno do epicentro da capital, o resto do país continua a funcionar normalmente”, confiou.

A Q-Better nem pensa, portanto, em abrandar os esforços na Ucrânia. Até porque já tem a experiência de anteriores conflitos noutras regiões do globo. “Há um risco a correr mas não será muito elevado. É uma regra da empresa não nos preocuparmos muito com isso. Não podemos colaborar em nada, temos de seguir com os negócios. Na realidade, sempre que acontecem conflitos deste género – e já tem acontecido noutros lados, no Egipto, na Líbia – e a situação acaba por se resolver”, concluiu o gestor.

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